Acho muita piada a certas coincidências.
Acabo de ler um texto da
Sylvia Beirute. Ela apresenta-nos uma teoria interessante sobre o mercado da poesia em Portugal. Fala de uma diferença entre as pessoas que gostam de poemas e das que efectivamente compram poemas. Ainda há uns dias tinha estado a pensar nisto.
No fim de semana, deparei-me com um artigo muito interessante no jornal
Expresso. Um texto objectivo, e também divertido, sobre a poesia nos dias de hoje. António Guerreiro começa com uma pergunta, retirada de um livro de um ensaísta e poeta francês, Jean-Claude Pinsson: "para que serve a poesia hoje?"
Desconhecia o debate em redor da utilidade dos poetas. Sempre pensei que, artisticamente falando, a sua existência estava consagrada. Eram os pintores das palavras, que sempre existiram e co-existiram com outras formas literárias. O verso e a prosa, de mãos dadas, caminhando pelas areias do tempo até à infinidade. Talvez me tenha equivocado.
As nossas concepções materiais tendem a sofrer mudanças significativas, mediante a época e contexto social. A poesia sofre uma profunda crise. Porém, ela não é existêncial: o seu propósito sempre foi claro. Falamos de uma crise, à semelhança do que se passa no resto do mundo, económica. Porque os livros pertencem, já há muitos anos, a uma estrutura industrial que visa o escoamento rápido e consequente lucro. É simples: o interesse em produzir, editar e publicar uma obra literária reflecte-se, única e exclusivamente, no seu valor de mercado. Desta forma, é fácil pensarmos o romance e a ficção imperam num mercado que, cada vez mais, esquece a Poesia. Ela tem tiragens menores, lucros menores. Se não rende, não se vende.
A frieza da máquina económica poderá destruir e tornar obsoleta uma forma literária? Penso que não. No texto de António Guerreiro, relembram-se a preconizações do desaparecimento do cinema com a invenção do video. As várias formas e expressões podem co-existir sempre. Umas com mais visibilidade que outras. E, mesmo num cenário onde a publicação de poesia seja uma utopia, inviabilizada pela necessidade de gerar lucro e capital, ela poderá sempre viver à margem das editoras e distribuidoras. A sua natureza artística pode fazer gerar movimentos de edições de autor, as tecnologias actuais permitem criar espaços de expressão livres. A poesia é como a liberdade. Pode ser amordaçada, mas encontrará sempre maneira de ser libertar da opressão.
Assim sendo, vou continuar a povoar este meu canto com textos, pensamentos e toda a poesia que conseguir. Gosto de produzir. Assim que juntar um espólio digno, tentarei editá-lo. Nessa altura, logo se vê.