sábado, 29 de outubro de 2011

reincido

reincido
no mesmo fantasma
sem paz na alma.
asma.
o sufoco
dos nervos
nos nervos
servos e presos
à condição
com dicção
que me amarra
e agarra
e não há farra que valha
e limpe a escumalha

como e arfo
sem faca e garfo
e as beiças
não sei se as
lavei depois de comer
oh porra
estou-me sempre a esquecer
e volto a aquecer
requento o alento
ele vai
mas vai lento
atento ao que quis esquecer

sulco esse mares.
por favor não pares
exacerba a reincidência
deriva no escuro
é pior que o vazio
lá dentro perderá inocência

reincido
nos medos
que me gelam os dedos
fujo de forçar o que sou
e livro me expresso
às vezes com nexo
caminho
mas não sei onde vou

e perdido num batel
que nunca chegará a bom porto
até no oceano mais belo
me encontra um morto
o fantasma
cansado
usado
traçado
num compasso
de um destino
destinado à redundância
óbvia
pérfida
mórbida
volta-me a prender
ao pior dos pesadelos
as reincidências. fantasmas
meu caros
há que temê-los
nunca esquecê-los

Afonso Poema


sábado, 22 de outubro de 2011

encontrei a paz novamente


encontrei a paz novamente
num arrepio que caminha pelo que sou
um passado ferido, um presente sem nada
vazio como a brisa do futuro.
encontrei o teu sorriso
perdido 
enterrado nas areias do tempo.
nas memórias do outrora fomos.

e depois da bonança
aceito.
o que podia ter sido.
o que não foi.
o que ainda poderá ser.
porque a esperança
é inimiga
é a última a morrer.

e agora sorrio eu.
já te vejo
sem uma película de asco.
a turvar-me a compreensão.

ainda me sabes a sonho
apesar de tudo.
um doce aroma
que me recorda
a flor
da juventude.

Afonso Poema


segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O que não se escreve

O que não se escreve,
não se enterra.
Ficará por cá em assombros.
O que não se escreve,
é uma agonia engolida
à força,
sem dó nem piedade
é um rancor que não passa
que teima em queimar a tripa.
E a inutilidade das lágrimas
que apenas expressam,
mas nunca atenuam
a dor.
O asco, o vil, o que de pior se tranca na alma
acabará por comer-vos vivos.
O que não se escreve
cai no infinito do esquecimento
sem marcas nem relevos na história.
Faz-nos vencidos e depois esquecidos.
Por isso escrevo.
Para me lembrar que existo.
Grito no papel.
Porque posso.
E o mundo é meu.
Crio,
sou um deus-homem.
Cada memória em verso,
que forma um universo
de paz.
Libertação.
Exorcismo.
Expulso os demónios
que assombram a minha solidão.
Por isso,
escrevo.
Para me superar.
Ou para me abrigar.


Afonso Poema

ainda oiço o mar

ainda oiço o mar
atrás de nós
a engolir os nossos gemidos
aflitos por rebentar
sob uma lua cheia
de paixão
ainda sinto a areia no corpo
suado pela brisa
de te ter nos meus braços.


Afonso Poema


domingo, 16 de outubro de 2011

Se quando fumo, adormeço

Se quando fumo, adormeço,
terei eu vivido num sonho?
Numa caverna enevoada,
onde só brilha a luz da ilusão
alimentada por uma chama de dormências
que me consome a consciência?
Pior era ter sonhado a minha vida.
Como se estivesse preso entre duas baforadas,
de incenso fumegante, em fuga,
num percurso aleatório.
Até me dissipar na omissão da minha existência.
Por ora, acendo um cigarro.
A brasa cauteriza-me as mágoas,
que nunca lavam as cinzas
do que antes eram memórias.

Afonso Poema

Há tanta beleza na liberdade

Há tanta beleza na liberdade
ela própria é um sinónimo do belo,
sem paralelo.
É o cerne de ser humano.
E do ser humano.
Passeamos com ela, num eterno romance.
Sem nuance. Ele é puro e selvagem.
Digo o que penso - sem remorso.
E muito penso no que digo.
Converso horas a fio,
eu mesmo, comigo.
Oh! Liberdade!
É tão doce o  teu toque,
e é a ti que eu invoco
uma jura de amor ardente.
Mas quando algo me prende,
aí, já nem o tempo me cura.
E na fonte,
secura.
Só terra, e alguma água do mar.
E sendo pobre - porque os versos nada valem,
deixo de sentir esse mundo.
Enjaulado no escombro
estilhaçado de um sonho.
Bem bonito.
Solarengo.
Mas que já não existe.
Oh! Liberdade.
Porque é que me pariste,
se nesta terra triste,
nunca te vi.
Aqui,
só deus existe.

Afonso Poema

Pesa-vos tanto

Pesa-vos tanto.
A consciência é uma cabra.
E choram na penumbra,
cobardes.
Ah, se a hipocrisia matasse.
Era vê-los cair como tordos,
numa eterna solidão.
Pesa-vos tanto.
Saberem de vocês mesmos.
Por isso pedem sangue.
Desde que haja espectáculo,
que morram os mais burros.
Pesa-vos tanto.
Quando engolem em seco,
pedaços de orgulho,
que vos prendem às intermitências
da liberdade.
Pesa-vos tanto.

Afonso Poema

Indigno

Com a poesia, os seus autores são sempre indignados. Porque outra razão quereriam eles escrever?

Existe uma grande diferença entre ser-se indignado e estar-se indignado. Ontem, na capital, milhares de pessoas manifestaram a sua indignação: com a actual situação do país, com os sucessivos cortes e repressões para a classe trabalhadora. Estavam indignadas. Mas, depois, diluíram esse sentimento com cerveja, alguns charros e a imensa variedade de lazer humano. E esqueceram-se. Quando passava da meia-noite, muitos já não estavam indignados. A maior parte estava já a dormir.

Um poeta nunca deixa de estar indignado e, perdoe-se o pleonasmo, ele é sempre indignado. Gosta de se manifestar, grita com os versos, sua entre duas rimas emparelhadas que acabam por fazer todo o sentido na conjuntura do poema. E por isso escrevem. Principalmente para os outros, por estarem já fartos de se ouvir.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O Retorno - Dulce Maria Cardoso

Adoro viajar de comboio. Especialmente quando vou visitar a cidade invicta.
Saio da capital e tenho sensivelmente três só para mim, para os meus pensamentos. Melhor do que tudo, três horas para ler.



Estava na Gare do Oriente e comprei o Público. E vi uma crítica excelente ao novo livro da Dulce Maria Cardoso. Ao que parece, a senhora está traduzida em várias línguas e dispõe de alguma reputação fora de portas. Contudo, eu nunca ouvira falar em tal nome. Mas a crítica tecia-lhe rasgados elogios à sua mais recente publicação - O Retorno. Um livro sobre o regresso de uma família de Angola no ano de 1975. Fiquei curioso. Na manhã seguinte, já no Porto, estava entre uma chávena de café e um cigarro e li novamente uma excelente crítica ao mesmo livro. Ainda mais intrigado fiquei; não resisti e dirigi-me à livraria mais próxima e comprei-o. E agora, falta-me pouca para o acabar. Por ora, surpreendentemente belo.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Deixo aos poucos de ser quem sou

Deixo aos poucos de ser quem sou.
perdi-me algures nesta vida.
É sempre noite - tudo tão escuro,
aqui não há bússola que me valha.
O tempo.
Esse já não mede nada.
Parou comigo - dentro do meu vazio.
Silêncio.
Amordaça-me o pensamento.
pois sou novo demais.
Não estou preparado.
Estou é perdido.
Silêncio.
Não me quero encontrar.
É à deriva que velejo melhor.
onde os ventos das palavras
sopram! sonham! sulcam!
as ondas cristalinas de um mar,
que não conheço,
nem nunca vi.

Afonso Poema

"Para quê poetas num tempo de indigência?", Holderlin

Acho muita piada a certas coincidências.

Acabo de ler um texto da Sylvia Beirute. Ela apresenta-nos uma teoria interessante sobre o mercado da poesia em Portugal. Fala de uma diferença entre as pessoas que gostam de poemas e das que efectivamente compram poemas. Ainda há uns dias tinha estado a pensar nisto.
No fim de semana, deparei-me com um artigo muito interessante no jornal Expresso. Um texto objectivo, e também divertido, sobre a poesia nos dias de hoje. António Guerreiro começa com uma pergunta, retirada de um livro de um ensaísta e poeta francês, Jean-Claude Pinsson: "para que serve a poesia hoje?"

Desconhecia o debate em redor da utilidade dos poetas. Sempre pensei que, artisticamente falando, a sua existência estava consagrada. Eram os pintores das palavras, que sempre existiram e co-existiram com outras formas literárias. O verso e a prosa, de mãos dadas, caminhando pelas areias do tempo até à infinidade. Talvez me tenha equivocado.

As nossas concepções materiais tendem a sofrer mudanças significativas, mediante a época e contexto social. A poesia sofre uma profunda crise. Porém, ela não é existêncial: o seu propósito sempre foi claro. Falamos de uma crise, à semelhança do que se passa no resto do mundo, económica. Porque os livros pertencem, já há muitos anos, a uma estrutura industrial que visa o escoamento rápido e consequente lucro. É simples: o interesse em produzir, editar e publicar uma obra literária reflecte-se, única e exclusivamente, no seu valor de mercado. Desta forma, é fácil pensarmos o romance e a ficção imperam num mercado que, cada vez mais, esquece a Poesia. Ela tem tiragens menores, lucros menores. Se não rende, não se vende.

A frieza da máquina económica poderá destruir e tornar obsoleta uma forma literária? Penso que não. No texto de António Guerreiro, relembram-se a preconizações do desaparecimento do cinema com a invenção do video. As várias formas e expressões podem co-existir sempre. Umas com mais visibilidade que outras. E, mesmo num cenário onde a publicação de poesia seja uma utopia, inviabilizada pela necessidade de gerar lucro e capital, ela poderá sempre viver à margem das editoras e distribuidoras. A sua natureza artística pode fazer gerar movimentos de edições de autor, as tecnologias actuais permitem criar espaços de expressão livres. A poesia é como a liberdade. Pode ser amordaçada, mas encontrará sempre maneira de ser libertar da opressão. 

Assim sendo, vou continuar a povoar este meu canto com textos, pensamentos e toda a poesia que conseguir. Gosto de produzir. Assim que juntar um espólio digno, tentarei editá-lo. Nessa altura, logo se vê.