sexta-feira, 18 de novembro de 2011

divago entre as melodias

divago entre as melodias
e o tempo passa
com a sua graça
arrastando a minha compreensão
entre compassos
notas e acordes
batidas quase cardíacas
que insistem
e persistem em recordar
o cheiro agradável
da inspiração


Afonso Poema

terça-feira, 15 de novembro de 2011

saudades de fazer amor


saudades de fazer amor
despido de preconceitos
entre poemas ou prosas
que procurem palavras
para pintar a enorme tela
que é amar

ler, entre beijos
e saborear as frases
que gritam, ofegantes
o nosso desejo.

e, no fim
aliviados
procuramos respostas
nos silêncios
da oscilação respiratória
que ainda bafeja
restos da carne
perdida em leituras
e interpretações
mais dormente
menos crente
que lentamente
como se acordasse de um sonho
faz nunca esquecer
a saudade de entrar
em quem nos ama
só isso é amor
o resto são só desejos
sem poesia
sem prosa

Afonso Poema

domingo, 13 de novembro de 2011

a Frida Kahlo

a sala suava das pessoas
que cansavam as imagens
já gastas pelo olhares do tempo
e ombros despidos dos casacos
pediam molduras adequadas
à carnalidade da memória
e as imagens. da Frida.
ferida, entre tantos amantes
e máquinas
que lhe colheram o corpo
moldaram a alma
até que o silêncio
não passasse de uma fotografia
ou várias
séries de desenhos de luz
que desenham infâncias
graúdas que encontram a morte

Afonso Poema

Frida Kahlo no Museu da Cidade


E, a meio da tarde domingo, fomos ver a exposição da Frida Kahlo ao Museu da Cidade.

A boleia de carro soube-me pela vida. Em menos de cinco minutos estávamos a estacionar do lado oposto ao Campo Grande. Tinha ouvido falar da exposição da Frida Kahlo, há poucos dias, num jornal qualquer. Era um daquele rectângulos publicitários, um flyer; uma vez mais, li o essencial na diagonal. Pensava que era uma exposição das pinturas da Frida, mas não. Era uma exposição de fotografias da autoria da Frida Kahlo, e muitos outros, pertencentes ao espólio. E só me apercebi disto depois de ter pago os três euros de entrada.

Uma das pessoas que estava comigo recordou-me que, pelos mesmos três euros, há uns anos, entrámos na casa museu do Rodin, em Paris; para além da belíssima exposição de esculturas, pinturas e desenhos do artista, estava também incluído a ida ao jardim. Lindo, cuidado, repleto de estátuas e recantos preenchidos por estudantes, artistas, casais. Já dizia o Cesário "Madrid, Paris, Berlim, S.Petersburgo, o mundo”. Lisboa, sempre foi outra história.

A exposição era interessante. Tinha uma forte componente auto biográfica: fez-me lembrar um livro que ofereci ao meu pai há uns natais atrás. "Fernando Pessoa: Fotobiografia", um livro alto e cheio de fotos do Pessoa, documentação relevante, amigos e conhecidos. É engraçado o quanto podemos conhecer das pessoas apenas pelas fotografias; ajuda-nos, muitas vezes, a compreender melhor o seu tempo. Fiquei a saber alguns factos curiosos: o casal Frida e Diego acolheram Trotsky, na sua fuga da repressão estalinista para o México.

Voltei para casa e senti uma forte vontade de escrever um poema sobre as imagens da exposição.

sábado, 12 de novembro de 2011

células

Às vezes, a escrita parece-me um cancro.

Até certa idade, catorze ou quinze anos, não entendia a língua portuguesa. O desinteresse reflectia-se, claro, nos maus resultados escolares. Aborreciam-me as histórias, os textos e, principalmente, a gramática. O estudo, quase científico, da linguagem. O memorizar de conceitos, tempos verbais, preposições. Tudo isso, até à minha pré adolescência, era enfadonho. O mais grave era ser filho de uma professora de português.

Porém, um dia algo em mim despertou. Uma necessidade ávida de palavras, de frases. E, só aí, todo o empinanço de anos de escola começou a fazer sentido. O ritmo das palavras, diferentes de autor para autor, a compreensão mais além da superficialidade de uma parágrafo. Pela primeira vez, fui mais além espuma das coisas. E comecei a ler e, ao mesmo tempo, a escrever. Parágrafos, alguns versos, contos e, depois, poesias. Ainda não escrevi nenhum livro, talvez por preguiça. Prefiro pensar que, simplesmente, me falta maturidade.

Porém, este pequeno nódulo na minha essência foi gradualmente aumentando, ocupando um espaço preponderante no meu organismo. A escrita consome-nos; quando procuramos demasiado dentro nós encontramos tudo aquilo que desejamos, mas também tudo aquilo que não queríamos ser. E esse esforço pode ser incomportável. No mínimo, desgastante.

Mas agora a tarefa é hercúlea: tenho uma ideia dentro de mim. É uma espécie de aflição e preciso de me ver livre desse peso. Preciso da confirmação que consigo completar esta missão. É o que me falta para ser escritor. Preciso do meu ritmo, longe do que conheço, e ficar noites a escrever. Tudo o que me possa vir à cabeça, até conseguir impor um ritmo. Aí sim, estarei pronto para escrever aquele que será o meu primeiro romance. E quando terminar, estarei na fase terminal desta minha doença, em cuidados paliativos, que se vão prolongar até à morte ou demência.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

escrever



escrever
porque preciso
como quero ar
ou água
ou o beijo
também húmido
de uma mulher


escrever.
porque sonho,
que o acaso.
é um caso estranho.
e ébrio
tendo a ver melhor
a enorme dimensão
do onírico




escrever
só porque sim
porque me faz bem
sempre fez

Afonso Poema


terça-feira, 8 de novembro de 2011

A solidão.

A solidão.
Trespassa-nos através de memórias frágeis.
Aí,
recordamos o que ficou por fazer,
com alguma pena de não ter feito mais.
E cada fragmento,
uma gargalhada,
um papel de parede
que condiz com a situação.
Sós. Somos maiores,
na luta convulsiva de pensamentos.
Contradições.
É difícil conversar com nós próprios,
quando não nos apetece ouvir.


Afonso Poema

domingo, 6 de novembro de 2011

As mulheres de Bukowski

Gosto de ser surpreendido.

Há coisa de uma semana, ouvi, no Slam Lx, o Jorge de Pina citar algumas frases de Bukowski. Não me lembro das citações, mas fiquei intrigado. Dias antes, uma amiga tinha-me dito que terminara há pouco um livro dele, e que gostara muito; não me lembro do título, é pena.

Ontem, um amigo emprestou-me um livro dele. Amarelado, com pelo menos duas décadas em cima, chegou-me às mãos, com uma capa que situei entre o assustador e o provocador. Eis o primeiro parágrafo:


"Eu tinha cinquenta anos e há quatro que não ia para a cama com uma mulher. Não tinha amigas. Quando  passava por elas, na rua ou onde quer que as via, olhava, mas olhava sem desejo e com desinteresse. Masturbava-me regularmente, e a ideia de ter uma relação com uma mulher - mesmo em termos não sexuais - estava muito longe da minha imaginação. Eu tinha uma filha ilegítima, com seis anos de idade. Ela vivia com a mãe e eu pagava uma pensão. Casara-me aos 35, há alguns anos atrás. Este casamento durou dois anos e meio. A minha mulher divorciou-se de mim. Só estive apaixonado uma vez. Ela morreu de alcoolismo crónico. Morreu aos 48, quando eu tinha 38. A minha mulher era doze anos mais nova do que eu. Acredito também que ela esteja morta, embora não tenha a certeza. Durante seis anos, depois do divórcio, ela escrevia-me pelo Natal uma longa carta. Nunca respondi..."


Charles Bukowski, Mulheres, 1978

Fiquei de imediato apaixonado pela introdução. Num parágrafo, Bukowski sintetiza na perfeição a personagem de Henry Chinaski.
Estou agora a devorar as primeiras páginas, perdido na lascívia, na sexualidade explícita e nos desejos, carnais e mundanos, de um homem tão parecido com os homens que tenho vindo a conhecer.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

E já Novembro

E já Novembro.
Com chuvas e ventos,
a esbarrarem na janela.
As gotas arrastadas,
melancólicas.
Certas de irem morrer
e acabar numa massa
amálgama.
Homogénea.
una na tristeza
gélida,
pálida,
cansada.


E já Novembro,
sempre frio.
Incómodo, mas suportável.
Condenado e confinado,
às quatro paredes
da nossa consciência,
enquanto perscrutamos
e escutamos:
a dolorosa melodia
das lágrimas do céu.
e sopros de monstros,
dentro das nossas cabeças.

Afonso Poema