domingo, 25 de setembro de 2011
Herberto Helder
Herberto Helder, Os Passos em Volta
Entre as intempéries
Entre as intempéries desse mundo imenso
da minha janela vejo sempre bem o sol
porquê, não sei, mas agora penso.
pois sim, a luz faz bem, mas deixa-me mole.
Sonho alto, todo o dia é uma esperança
mas nada rasga a paz de um céu azul
e se depois da tempestade vem bonança
nada acontece e então fico fulo.
E acabo sempre cansado de tanto nada.
tanta brisa suave que quase sufoca
e a inércia sempre foi complicada.
A mudança: alguém que a provoque.
porque é deitados num jardim
que continuaremos em choque.
Afonso Poema
Afonso Poema
sábado, 24 de setembro de 2011
Cultura à Rasca
Hoje, no Expresso, li uma crónica maravilhosa da jornalista Clara Ferreira Alves.
Ela representa uma geração cuja educação foi conseguida sem suportes tecnológicos, sem memória virtual. Ela começa o texto dizendo que "a cultura já não é o que era". Pois claro, o mundo mudou. As pessoas mudaram. A cultura não podia ser excepção. E, com imenso saudosismo, ela vai enumerando grandes nomes da literatura, que os seus contemporâneos devoravam com imensa avidez. Comiam "Bergman ao pequeno-almoço". Tinham que conhecer os textos de Nietzsche e Schopenhauer para poderem discutir o niislimo.
Tudo mudou entretanto. Eu, nascido na década de 80, que fui crescendo com os adventos tecnológicos, assisti a estupidificação a que a minha geração foi submetida. Trocámos os livros pelos computadores, a liberdade de expressão pela irresponsabilidade. Os clássicos cansam-nos, preferimos sempre o filme. Não temos tempo para ler, o mundo anda demasiado rápido para podermos rir com Mark Twain ou nos surpreender por Marx. Não discutimos. Porque não pensamos e não formamos opinião. Absorvemos pequenos fragmentos no facebook, num blog. Mais que dois parágrafos é uma seca.
Mas alguns de nós recusamos esse rótulo, que a cada dia que passa, se vai generalizando. Apesar de estarmos à rasca, como a nossa cultura, vamos tentando aproveitar os poucos momentos mortos para irmos folheando. Daqui a uns anos vamos ser nós no poder, nos cargos dirigentes, nos cargos culturais. Temo o pior. Alea Jacta Est.
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