domingo, 25 de setembro de 2011

PORTUGAL 2011 - YouTube



Herberto Helder



"Há em mim todas as virtudes da confiança, mas sou um desesperado. Apesar de tudo também sou um homem. Tenho capacidades de amor. Amo a minha semelhança com todos os homens, mas desespero nesse mesmo amor. Estou fechado num quarto. Nem posso fumar. Não posso descansar. Imagino que consiga partir de Antuérpia depois de lá chegar num desses comboios rangentes. Antuérpia não é um sítio final. É uma cidade como as outras: com bares e nevoeiro, o silêncio, as pessoas, as vozes, a matemática impenetrável das multiplicações e desmultiplicações, e o fluxo e refluxo das imagens. Em Antuérpia há prostitutas, há um calor humano degradado, a embriaguez. Lá também se morre. Talvez alguém tenha um dia ressuscitado em Antuérpia. Não sei."

Herberto Helder, Os Passos em Volta


Entre as intempéries

Entre as intempéries desse mundo imenso
da minha janela vejo sempre bem o sol
porquê, não sei, mas agora penso.
pois sim, a luz faz bem, mas deixa-me mole.

Sonho alto, todo o dia é uma esperança
mas nada rasga a paz de um céu azul
e se depois da tempestade vem bonança
nada acontece e então fico fulo.

E acabo sempre cansado de tanto nada.
tanta brisa suave que quase sufoca
e a inércia sempre foi complicada.

A mudança: alguém que a provoque.
porque é deitados num jardim
que continuaremos em choque.

Afonso Poema

sábado, 24 de setembro de 2011

Cultura à Rasca

Hoje, no Expresso, li uma crónica maravilhosa da jornalista Clara Ferreira Alves.

Ela representa uma geração cuja educação foi conseguida sem suportes tecnológicos, sem memória virtual. Ela começa o texto dizendo que "a cultura já não é o que era". Pois claro, o mundo mudou. As pessoas mudaram. A cultura não podia ser excepção. E, com imenso saudosismo, ela vai enumerando grandes nomes da literatura, que os seus contemporâneos devoravam com imensa avidez. Comiam "Bergman ao pequeno-almoço". Tinham que conhecer os textos de Nietzsche e Schopenhauer para poderem discutir o niislimo.

Tudo mudou entretanto. Eu, nascido na década de 80, que fui crescendo com os adventos tecnológicos, assisti a estupidificação a que a minha geração foi submetida. Trocámos os livros pelos computadores, a liberdade de expressão pela irresponsabilidade. Os clássicos cansam-nos, preferimos sempre o filme. Não temos tempo para ler, o mundo anda demasiado rápido para podermos rir com Mark Twain ou nos surpreender por Marx. Não discutimos. Porque não pensamos e não formamos opinião. Absorvemos pequenos fragmentos no facebook, num blog. Mais que dois parágrafos é uma seca.

Mas alguns de nós recusamos esse rótulo, que a cada dia que passa, se vai generalizando. Apesar de estarmos à rasca, como a nossa cultura, vamos tentando aproveitar os poucos momentos mortos para irmos folheando. Daqui a uns anos vamos ser nós no poder, nos cargos dirigentes, nos cargos culturais. Temo o pior. Alea Jacta Est.