Às vezes, a escrita parece-me um cancro.
Até certa idade, catorze ou quinze anos, não entendia a língua portuguesa. O desinteresse reflectia-se, claro, nos maus resultados escolares. Aborreciam-me as histórias, os textos e, principalmente, a gramática. O estudo, quase científico, da linguagem. O memorizar de conceitos, tempos verbais, preposições. Tudo isso, até à minha pré adolescência, era enfadonho. O mais grave era ser filho de uma professora de português.
Porém, um dia algo em mim despertou. Uma necessidade ávida de palavras, de frases. E, só aí, todo o empinanço de anos de escola começou a fazer sentido. O ritmo das palavras, diferentes de autor para autor, a compreensão mais além da superficialidade de uma parágrafo. Pela primeira vez, fui mais além espuma das coisas. E comecei a ler e, ao mesmo tempo, a escrever. Parágrafos, alguns versos, contos e, depois, poesias. Ainda não escrevi nenhum livro, talvez por preguiça. Prefiro pensar que, simplesmente, me falta maturidade.
Porém, este pequeno nódulo na minha essência foi gradualmente aumentando, ocupando um espaço preponderante no meu organismo. A escrita consome-nos; quando procuramos demasiado dentro nós encontramos tudo aquilo que desejamos, mas também tudo aquilo que não queríamos ser. E esse esforço pode ser incomportável. No mínimo, desgastante.
Mas agora a tarefa é hercúlea: tenho uma ideia dentro de mim. É uma espécie de aflição e preciso de me ver livre desse peso. Preciso da confirmação que consigo completar esta missão. É o que me falta para ser escritor. Preciso do meu ritmo, longe do que conheço, e ficar noites a escrever. Tudo o que me possa vir à cabeça, até conseguir impor um ritmo. Aí sim, estarei pronto para escrever aquele que será o meu primeiro romance. E quando terminar, estarei na fase terminal desta minha doença, em cuidados paliativos, que se vão prolongar até à morte ou demência.
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