Gosto de ser surpreendido.
Há coisa de uma semana, ouvi, no Slam Lx, o Jorge de Pina citar algumas frases de Bukowski. Não me lembro das citações, mas fiquei intrigado. Dias antes, uma amiga tinha-me dito que terminara há pouco um livro dele, e que gostara muito; não me lembro do título, é pena.
Ontem, um amigo emprestou-me um livro dele. Amarelado, com pelo menos duas décadas em cima, chegou-me às mãos, com uma capa que situei entre o assustador e o provocador. Eis o primeiro parágrafo:
"Eu tinha cinquenta anos e há quatro que não ia para a cama com uma mulher. Não tinha amigas. Quando passava por elas, na rua ou onde quer que as via, olhava, mas olhava sem desejo e com desinteresse. Masturbava-me regularmente, e a ideia de ter uma relação com uma mulher - mesmo em termos não sexuais - estava muito longe da minha imaginação. Eu tinha uma filha ilegítima, com seis anos de idade. Ela vivia com a mãe e eu pagava uma pensão. Casara-me aos 35, há alguns anos atrás. Este casamento durou dois anos e meio. A minha mulher divorciou-se de mim. Só estive apaixonado uma vez. Ela morreu de alcoolismo crónico. Morreu aos 48, quando eu tinha 38. A minha mulher era doze anos mais nova do que eu. Acredito também que ela esteja morta, embora não tenha a certeza. Durante seis anos, depois do divórcio, ela escrevia-me pelo Natal uma longa carta. Nunca respondi..."
Charles Bukowski, Mulheres, 1978
Fiquei de imediato apaixonado pela introdução. Num parágrafo, Bukowski sintetiza na perfeição a personagem de Henry Chinaski.
Estou agora a devorar as primeiras páginas, perdido na lascívia, na sexualidade explícita e nos desejos, carnais e mundanos, de um homem tão parecido com os homens que tenho vindo a conhecer.
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