domingo, 25 de setembro de 2011

Herberto Helder



"Há em mim todas as virtudes da confiança, mas sou um desesperado. Apesar de tudo também sou um homem. Tenho capacidades de amor. Amo a minha semelhança com todos os homens, mas desespero nesse mesmo amor. Estou fechado num quarto. Nem posso fumar. Não posso descansar. Imagino que consiga partir de Antuérpia depois de lá chegar num desses comboios rangentes. Antuérpia não é um sítio final. É uma cidade como as outras: com bares e nevoeiro, o silêncio, as pessoas, as vozes, a matemática impenetrável das multiplicações e desmultiplicações, e o fluxo e refluxo das imagens. Em Antuérpia há prostitutas, há um calor humano degradado, a embriaguez. Lá também se morre. Talvez alguém tenha um dia ressuscitado em Antuérpia. Não sei."

Herberto Helder, Os Passos em Volta


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